Aceleração digital e a epidemia de golpes: Por que a inovação deve seguir de mãos dadas com a cibersegurança
Por Tonimar Dal Aba, Gerente Técnico da ManageEngine no Brasil.
Dados recém-divulgados da 20ª edição do Anuário Brasileiro de Segurança Pública (2026) confirmam uma mudança profunda e definitiva no cenário da criminalidade no Brasil. Enquanto os indicadores de crimes de rua tradicionais estão caindo, as fraudes digitais e os cibercrimes atingiram máximas históricas. Em 2025, o país registrou mais de 2,26 milhões de casos de estelionato, representando um aumento impressionante de 429,8% em comparação a 2018. Especificamente em relação aos estelionatos por meio eletrônico, foram registrados 346.753 casos em 2025, um salto de 20,6% em relação ao ano anterior. Não é surpresa que a sensação de vulnerabilidade tenha se espalhado por todo o país: 83,2% da população brasileira teme ser vítima de um golpe digital.
Esse cenário de segurança pública reflete diretamente as vulnerabilidades enfrentadas pelo setor corporativo. Dados do estudo da ManageEngine, The State of Digital Transformation 2026 in Latin America, revelam que 57% das organizações entrevistadas no Brasil vivenciaram um volume maior de ciberataques e violações em 2025. Os criminosos perceberam que invadir ambientes corporativos ou explorar brechas na gestão de dados de clientes e financeiros gera retornos financeiros excepcionalmente altos a um custo e risco desproporcionalmente baixos. Hoje, muitos golpes digitais funcionam como atividades produtivas, com divisão de trabalho, engenharia social avançada e exploração de vulnerabilidades técnicas.
No entanto, a capacidade de resposta do setor corporativo a essa ameaça é prejudicada por um gargalo interno: a alta fragmentação tecnológica. O estudo da ManageEngine também revelou que as empresas brasileiras utilizam uma média de 18 soluções de software pontuais distintas, a maior taxa de fragmentação de software da América Latina. Para 71% dos executivos locais entrevistados, esse acúmulo não coordenado de ferramentas, conhecido como tool sprawl (proliferação de ferramentas), aumentou drasticamente a complexidade da infraestrutura e criou pontos cegos de segurança. Agravando esse problema, há um paradoxo financeiro: 63% dos líderes de TI admitem que a maior parte de seu orçamento está restrita a manter sistemas legados em funcionamento, em vez de financiar a modernização dos negócios e a proteção estratégica.
Essa fragilidade estrutural torna-se ainda mais crítica com a rápida adoção da inteligência artificial. Embora o entusiasmo pela IA seja alto, 74% dos executivos brasileiros expressam preocupação significativa com o vazamento de dados corporativos decorrente do uso não autorizado de ferramentas de IA generativa por funcionários, um fenômeno chamado de shadow IT (TI fantasma). Em infraestruturas de TI desconectadas, a introdução de novas tecnologias cria vulnerabilidades imediatas que os cibercriminosos podem explorar rapidamente para capturar credenciais e dados financeiros confidenciais.
Para conter a onda de crimes digitais no Brasil, os investimentos em tecnologia corporativa devem evoluir de uma mentalidade puramente focada no crescimento para uma estratégia integrada de gestão de TI e cibersegurança. Essa transformação exige colocar a gestão de identidades e acessos (IAM) e a gestão de acessos privilegiados (PAM) no centro da arquitetura tecnológica. Isso impõe um controle rigoroso sobre acessos privilegiados e credenciais corporativas, uma vez que credenciais comprometidas continuam sendo a principal porta de entrada para intrusões e violações de dados.
Além disso, a crescente complexidade dos ambientes digitais exige unificação operacional, eliminando softwares pontuais isolados em favor de plataformas integradas capazes de oferecer visibilidade completa e monitoramento contínuo em tempo real. Essa camada tecnológica deve ser combinada com uma cultura de segurança mais forte e treinamento contínuo dos funcionários, capacitando as equipes para reconhecer táticas de engenharia social e praticar o uso seguro da IA. Atualmente, aprender a resistir à manipulação digital é o único método de prevenção contra a fraude moderna.
A cibersegurança e a consolidação da infraestrutura de TI não são mais tópicos isolados para o departamento técnico. Juntas, elas formam um pilar estratégico da segurança nacional e da sustentabilidade dos negócios. A tecnologia continuará a impulsionar o crescimento econômico e a inovação no Brasil; no entanto, a confiança digital só poderá ser mantida se a segurança corporativa avançar no mesmo ritmo.














