Clonagem de crachás expõe fragilidade das empresas e tecnologia já oferece antídoto
Por: Fabio Cortez, Gerente Regional de Vendas de Controle de Acesso Físico da HID no Brasil
Com um leitor portátil barato e poucos segundos de aproximação, é possível copiar um crachá corporativo e atravessar portas restritas sem deixar rastros. A prática, mais comum do que se imagina, evidencia uma vulnerabilidade silenciosa nos sistemas de controle de acesso ainda baseados em tecnologias antigas. Diante do avanço das ameaças e do endurecimento das leis de proteção de dados na América Latina, especialistas defendem que a migração para credenciais criptografadas e autenticação multifator deixou de ser uma atualização tecnológica para se tornar uma decisão estratégica.
De acordo com o Verizon Data Breach Investigations Report 2024, o acesso físico não autorizado continua figurando entre os vetores de ataque mais subestimados. Na América Latina, onde grande parte da infraestrutura de controle de acesso opera com tecnologia de mais de uma década, a exposição é ainda maior.
Esse roubo de identidade, tão rápido e simples de executar quanto parece, pode se transformar em um grande risco para as organizações, uma pequena fissura capaz de comprometer recursos, informações e todo o esquema de segurança. A boa notícia é que o mercado evolui na mesma velocidade das ameaças. Hoje existem tecnologias projetadas para fechar essas brechas, e a decisão de adotá-las é uma decisão estratégica.
Em geral, o primeiro passo consiste em compreender o perfil de risco e escolher a combinação adequada de tecnologias. As opções seguras incluem o uso de cartões inteligentes com criptografia, credenciais móveis em smartphones, verificação biométrica e sistemas de autenticação dupla, que fortalecem significativamente a proteção da identidade e o controle de acesso.
Além disso, é possível configurar os leitores para que façam a leitura dos cartões de forma segura. Assim, as organizações poderão eliminar gradualmente os cartões antigos e torná-los mais seguros.
Por que tantos sistemas são vulneráveis?
Os cartões de baixa frequência e os formatos herdados, como Prox ou MIFARE Classic, continuam presentes em milhares de sistemas de acesso. O problema é estrutural, já que transmitem códigos fixos sem criptografia nem autenticação avançada, tornando-os alvos fáceis para clonadores RFID.
Muitos sistemas de controle de acesso ainda dependem de credenciais herdadas que não foram projetadas para enfrentar as ameaças atuais, e essa dependência abre caminho para cenários de intrusão que podem passar despercebidos nos registros.
Existem também riscos derivados, como a possibilidade de que criminosos eliminem registros, dificultando a determinação de como e quando ocorreu a intrusão. Essa falta de rastreabilidade pode facilitar delitos, vazamentos de dados, afetar a reputação da organização e gerar altos custos em medidas corretivas.
Vale destacar que a clonagem nem sempre vem de fora. Em muitos casos, a ameaça é interna: funcionários ou contratados com acesso legítimo podem facilitar, de forma deliberada ou inadvertida, a duplicação de credenciais, reforçando a necessidade de adotar arquiteturas de segurança que validem a autenticidade da credencial em cada interação.
Segurança avançada em credenciais inteligentes
Já sabemos que as credenciais herdadas que transmitem códigos fixos podem ser duplicadas com um leitor portátil. Pois bem, diante dessa fragilidade, existem tecnologias com arquiteturas projetadas para eliminar a brecha desde a raiz.
Trata-se de soluções cuja força está na criptografia avançada e na autenticação mútua: cada interação entre credencial e leitor é validada em ambas as direções, impedindo que uma cópia funcione como uma chave legítima.
Um exemplo dessas soluções são as plataformas de credenciais de acesso como Seos, que definem como as credenciais são criadas, gerenciadas e autenticadas, projetadas para substituir os formatos herdados. Seu objetivo é oferecer um acesso mais seguro e flexível, integrando criptografia avançada e autenticação mútua em cada interação entre credencial e leitor.
Ao contrário dos cartões vulneráveis, essa tecnologia não depende de um único código estático. As informações são encapsuladas em objetos seguros (Secure Identity Objects), que adicionam múltiplas camadas de proteção e tornam inviável a reprodução.
Os principais fabricantes oferecem essas soluções com flexibilidade de implementação: podem ser aplicadas em cartões, chaveiros ou credenciais híbridas que combinam tecnologias anteriores para facilitar a migração gradual, especialmente relevante na América Latina, onde a substituição total da infraestrutura nem sempre é viável a curto prazo. Além disso, já existem credenciais fabricadas com materiais alternativos ao PVC, que atendem a objetivos ambientais corporativos sem comprometer a segurança.
Leitores, a outra camada da segurança
A clonagem RFID evidencia a necessidade de contar com ferramentas que permitam comprovar a autenticidade das credenciais além do sistema central. É nesse ponto que se torna fundamental dispor de leitores capazes de realizar auditorias rápidas e precisas nos pontos de acesso.
Existem leitores de controle de acesso que combinam reconhecimento facial impulsionado por inteligência artificial com múltiplos métodos de autenticação, credenciais de alta e baixa frequência, acesso móvel, códigos QR e PIN, permitindo configurar esquemas multifator para áreas sensíveis.
Seu design incorpora controles de segurança e privacidade desde a origem: os dados biométricos são convertidos em dados hash e podem ser armazenados de forma segura. Essa arquitetura de privacidade por design (privacy by design) é relevante no contexto regulatório atual, em que a minimização de dados biométricos é uma expectativa crescente.
A integração com protocolos padrão como OSDP e Wiegand facilita sua incorporação em infraestruturas existentes, enquanto a alimentação via Ethernet (PoE) simplifica a instalação e reduz custos operacionais. Para maximizar a segurança, recomenda-se que as instalações sejam realizadas com comunicação OSDP V2 e chaves criptográficas únicas, com serviços como Elite Key da HID, garantindo que os leitores instalados só possam ler credenciais autorizadas.
A função desses leitores é dupla: por um lado, oferecem verificação imediata que ajuda a detectar tentativas de clonagem; por outro, permitem identificar vulnerabilidades em credenciais herdadas que ainda circulam. Com isso, tornam-se uma ferramenta prática para fechar a brecha entre sistemas obsoletos e plataformas modernas de alta segurança.
O dilema estratégico da segurança física
A clonagem RFID expõe uma paradoxa: enquanto as ameaças se tornam cada vez mais sofisticadas, muitas organizações ainda dependem de credenciais que podem ser copiadas em segundos. O dilema não é técnico, mas estratégico, continuar confiando em cartões obsoletos ou migrar para sistemas que garantam autenticidade.
A segurança física deve ser concebida como um ecossistema dinâmico, no qual credenciais criptografadas, autenticação biométrica e leitores de verificação trabalham em conjunto para impedir que a identidade seja replicada.
Uma auditoria do estado atual das credenciais em uso, identificando quantos dispositivos herdados ainda circulam e quais vulnerabilidades representam, é o primeiro passo concreto rumo a uma postura de segurança à altura das ameaças de hoje.


















