IA deixa fase de experimentação e novos modelos de distribuição avançam no audiovisual - NetAv

IA deixa fase de experimentação e novos modelos de distribuição avançam no audiovisual

Tendências | 2026-10-03

Debates promovidos pela SET no Pós-IBC 2026 apontam avanço da inteligência artificial nos fluxos de produção e novas possibilidades de personalização, distribuição e monetização de conteúdo.

A inteligência artificial já começa a deixar a fase de experimentação para ocupar funções concretas nos fluxos de produção audiovisual. Ao mesmo tempo, personalização, distribuição de conteúdo para diferentes telas e novos modelos de monetização ganham espaço nas estratégias de emissoras e empresas de mídia. Essas foram algumas das principais tendências discutidas no evento Pós-IBC 2026, realizado no último dia 30 pela SET, em São Paulo.

O encontro reuniu executivos e especialistas para analisar os principais movimentos observados no IBC 2026, realizado entre 11 e 14 de setembro, em Amsterdã, e seus impactos sobre o mercado brasileiro. Entre os temas debatidos estiveram inteligência artificial, TV 3.0, automação, novos modelos de negócio, distribuição móvel e mudanças na experiência de consumo de conteúdo.

Para Paulo Henrique Castro, presidente da SET, uma das mudanças percebidas nesta edição do IBC foi o amadurecimento da inteligência artificial no setor audiovisual. “A IA deixou de ser um hype e passou a ser uma ferramenta”, afirmou. Segundo ele, a tecnologia já se consolida como recurso de produção com potencial para proporcionar ganhos de produtividade.

Entre as aplicações que começam a chegar às operações estão marcação e indexação automática de conteúdo, recuperação de acervos, pré-edição, legendagem, dublagem, geração de trailers e produção de clipes. Para Roberto Dias Lima Franco, conselheiro e ex-presidente da SET, porém, o desafio das empresas é ir além dos ganhos de eficiência e identificar aplicações capazes de transformar a produção ou gerar novas receitas.

“Ter marcação, indexação e trailer não mudam resultados. Só muda o jogo o que altera o modo de produzir ou abre receita nova”, afirmou Franco durante o painel “Do IBC para o Mercado: Tendências que vão transformar o audiovisual”.

Personalização e novas receitas

A combinação entre dados, conectividade e inteligência artificial também amplia as possibilidades de personalização da experiência do público e de desenvolvimento de novas formas de monetização.

Rodrigo Martinez, vice-presidente da Rede CNT, destacou que a integração entre televisão aberta e internet modifica as possibilidades de relacionamento das emissoras com a audiência. “A televisão deixa de ser apenas um canal e passa a operar como plataforma. O sinal aberto continua universal. A internet acrescenta catálogo, dados, personalização e novas formas de monetização na mesma tela”, afirmou.

Nesse cenário, um dos desafios será integrar inventários de publicidade linear, streaming e publicidade endereçável, preservando escala e controle da experiência. A capacidade de conhecer melhor a audiência e oferecer conteúdos e publicidade mais adequados aos diferentes públicos aparece, assim, como uma das frentes de transformação dos modelos de negócio.

Na avaliação de Thiago Lajus, diretor executivo da InterTV RN, a transformação tecnológica também reforça o valor da produção regional. Para ele, ferramentas de IA e operações baseadas em software podem modificar processos de produção e pós-produção, mas o conteúdo hiperlocal permanece como diferencial das emissoras regionais. O executivo também destacou a necessidade de políticas de governança para o uso da inteligência artificial e de profissionais capazes de alinhar essas ferramentas à estratégia das empresas.

IA entra nos fluxos de produção

As aplicações práticas da inteligência artificial também foram abordadas por Rodrigo Agra, coordenador de Projetos de Infra e Telecom para Produção de Conteúdo na área de Tecnologia do Grupo Globo. Entre os exemplos apresentados estão automação de workflows, catalogação de conteúdos, geração de melhores momentos sob demanda e personalização de elementos de uma transmissão.

O desafio agora, segundo Agra, está em escalar essas soluções e transformar os investimentos em resultados concretos para as operações e para a experiência do público. A perspectiva é que recursos atualmente mais associados ao streaming possam, no futuro, também ser incorporados à DTV+, ampliando as possibilidades de personalização da televisão aberta.

A supervisão humana continua sendo um componente relevante desse processo, especialmente diante do aumento da utilização de sistemas automatizados na produção e organização de conteúdos.

Conteúdo também avança para os dispositivos móveis

Outro movimento acompanhado pelo setor é a distribuição direta de televisão para dispositivos móveis. Robson Tavares, diretor técnico da Rede CNT, destacou experiências com tecnologias como ATSC 3.0 e 5G Broadcast, que permitem ampliar as possibilidades de entrega de conteúdo para smartphones e outros dispositivos.

Entre os desafios para a expansão dessas tecnologias estão a disponibilidade de aparelhos compatíveis e questões relacionadas ao uso do espectro. Tavares também relatou a experiência da emissora em visita à TDF (Télédiffusion de France), que acompanha a evolução do 5G Broadcast na Europa.

Personalização, mobilidade, automação e capacidade de distribuir conteúdo em diferentes telas aparecem, portanto, como movimentos convergentes de uma mesma transformação do audiovisual.

TV 3.0 aproxima broadcast e ambiente digital

No Brasil, parte dessas mudanças converge com a implantação da TV 3.0. O novo sistema combina a cobertura e o alcance da radiodifusão com recursos de conectividade, abrindo possibilidades para aplicações interativas, personalização e novos formatos de publicidade e monetização.

Castro destacou que o desenvolvimento da TV 3.0 resulta de um trabalho conjunto de diferentes agentes do setor. “É um projeto de país, com a SET, o Fórum, as universidades e o governo”, afirmou.

O presidente da SET também lembrou o reconhecimento internacional recebido pela implementação brasileira da DTV+ no IBC Innovation Awards 2026. Para ele, a nova geração tecnológica representa uma renovação da própria experiência da televisão aberta.

Ao promover o Pós-IBC, a SET busca trazer para o mercado brasileiro diferentes leituras sobre as tecnologias, estratégias e modelos de negócio apresentados nos principais encontros internacionais do setor. Segundo Castro, a presença da entidade nesses fóruns permite tanto compartilhar as iniciativas desenvolvidas no Brasil quanto acompanhar tendências que podem ter impacto sobre radiodifusores, empresas de mídia e fornecedores de tecnologia no país.

Sobre a SET

Centro de excelência em atualização, representação e difusão de conhecimento para profissionais e empresas do setor, a SET é uma associação que atua como hub de tecnologia, networking e negócios para o ecossistema de broadcast, mídia e audiovisual. A entidade acompanha as transformações do mercado, conecta profissionais, empresas e lideranças e promove a troca de conhecimento sobre tecnologias, tendências e modelos que impactam toda a cadeia, da criação e produção à distribuição e ao consumo de conteúdo.